Ad Astra: Uma viagem em busca de si próprio



Em uma viagem ao interior da nossa galáxia, o astronauta Roy McBride (Brad Pitt) tem de enfrentar uma série de desafios para encontrar o seu objetivo: o pai, que desapareceu em uma missão na busca por vida extraterrestre há mais de dezesseis anos.


 Apesar de demonstrar ser um homem frio (inclusive sendo elogiado por isso), a personagem de Pitt tem muito mais a nos oferecer, do que simplesmente uma “cara de paisagem”. A missão que lhe é designada, desperta sentimentos que o mesmo havia deixado guardados no fundo da sua memória, mas que se fossem esbravejados quando deveriam, nos fazem imaginar toda uma nova história para o longa, e isto, passa longe de ser ruim.


Engana-se quem pensa ao ler a sinopse, ou ver o trailer do filme, que se trata de uma simples aventura espacial, com belas imagens do espaço, tensão e uma dose de ficção científica. O filme é tudo isso sim, mas seria no mínimo ingenuidade esperar que Ad Astra seja apenas mais um filme de ficção científica. Os dilemas presentes o deixam com uma carga pesada de reflexões sobre a tal da natureza humana e suas consequências. Major McBride é um cara que perdeu o seu ânimo pela vida, leva tudo no piloto automático, prefere evitar pessoas e se relaciona com elas apenas por conta do trabalho. O filme mesmo não nos mostra mais do que isso, deixando para o espectador relances de uma aparente relação conjugal que foi de mal a pior, gerando cicatrizes claramente não curadas por baixo de sua pele, agravando assim uma mentalidade pessimista em relação à sua vida, ao fato de respirar.
"Ele capturou mundo estranhos e distantes em detalhes nunca vistos. Mundos belos e magníficos, cheios de surpresas e maravilhas. Mas, sob suas superfícies sublimes, não haveria nada. Nem amor nem ódio. Nem luz nem escuridão. Ele só conseguiu enxergar o que não estava lá, e não viu o que estava bem diante dele."  

É curioso como o McBride soa hipócrita quando suas atitudes demonstram o contrário do que ele fala, a princípio, parece não se interessar pela história do pai, como quem tenta se convencer da possibilidade de ele estar morto ser real, afinal, não tem mais notícias dele faz tempo, mas quando encara a possibilidade disso não ser verdade, se desespera ao ser colocado de lado, não podendo assim encontrar a resposta como acha que deveria ser. Isto me faz pensar nas relações estranhas que nos deparamos no dia a dia, espalhamos hipocrisias, fingimentos, escondendo a verdadeira feição que gostaríamos de mostrar, mas que por medo de uma reação incompreensível por parte do outro, ou por simplesmente querer manter a nossa zona de conforto, não fazemos. Deveríamos sempre botar a boca no trombone e falar o que pensamos? No tempo e com o tom certo sim, devemos, mas isto é um exercício para uma vida e caímos na maior parte das vezes no erro, ninguém nasce pronto e estamos longe de ser um super-homem de Nietzsche. As nossas entranhas tremem ao lembrarmos dos erros que não conseguimos superar, e convenhamos, há sempre aquele lá no fundo que é como uma enorme pedra no sapato da nossa existência.

Carregamos todo um peso dentro de nós, alguns preferem não olhar com tanta profundidade para dentro de si, por medo? Por não ligarem? Por não terem nada dentro? Vai saber! Eu posso falar por mim, e você? Imagino que podemos encontrar mais dentro de nós, do que lá fora, isso é satisfatório ou não? Observe que não estou aqui para dar respostas, Ad Astra também não. O filme é provocador e em algum momento, se você for muito diferente do protagonista, você irá se perguntar o que faria no lugar dele. Se você já se encontra em uma situação como a dele, em que carrega tanto ódio dentro de si, tanta amargura e dor, recomendo fazer uma viagem e não uma fuga. 
"Sou atraído cada vez para mais longe do sol, até você. Você está vivo. Esse tempo todo. Preciso aceitar o fato de que nunca o conheci de verdade, ou serei eu, sendo puxado para o mesmo buraco escuro que você?"
As palavras soam como sendo direcionadas a terceiros, mas podem muito bem servirem para si próprio.




Com relação aos aspectos técnicos do filme, você irá se deparar com uma bela fotografia, por vezes um excelente cgi, por outras nem tanto, mas que cumpre o que se propõe. Uma característica interessante do filme é o seu realismo, há na lua bases e uma guerra que não é aprofundada (mas que garante uma cena legal de um veículo lunar rodando), situações críveis se você conhece os planos espaciais que rondam a nossa atualidade. O elenco de apoio está operante, não há nada de mais para se notar e a trilha sonora me parece comum e não tão marcante quando poderia.


Como ponto alto temos a atuação do Brad Pitt, ele consegue passar muito bem a confusão que é ser um homem carregado por um passado repleto de dor e diferente do que faz o Casey Affleck em Manchester By The Sea, mas ainda sim com semelhanças: a tragédia familiar, as cicatrizes e não saber como lidar com elas. Em MBTS entretanto, acompanhamos todo o processo que leva a personagem de Casey ser aquilo, aqui não, o que definiu McBride obviamente já aconteceu.


Veja Ad Astra esperando uma ficção científica e se decepcione, o melhor é não esperar nada e se deixar levar com o ritmo tortuoso em uma viagem a um reencontro com o vasto universo que existe dentro de todos os seres humanos.

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