Deus em Algum Lugar: A responsabilidade de ser poderoso


De cara, Deus em Algum lugar consegue algo interessante dentro do universo de quadrinhos, construir uma boa história de super-heróis com um pé dentro da realidade.


Recém chegado a sua nova escola, um rapaz negro aparentemente orgulhoso chamado Sam recebe como boas vindas uma boa surra de alguns colegas preconceituosos, em meio a luta (que estava mais para massacre), Sam é socorrido por dois irmãos “gente boa”, Hugh e Eric. Eles oferecem não só uma ajuda para o ocorrido, como também uma amizade bonita de se ver. Passado algum tempo, os irmãos e Sam concluem o seus estudos e Hugh casa-se com Almah, uma linda mulher por quem Sam é apaixonado desde o seu tempo de faculdade. Apesar da paixão adormecida a relação entre os quatro amigos é algo bem saudável, Eric e Sam se tornam muito próximos um do outro e Hugh demonstra uma certa inveja disto. A vida dessas personagens segue tranquila até que em uma explosão acontece no prédio de Eric, leva a morte de algumas pessoas e deixa mais um monte feridas. Eric entretanto não sofre um arranhão sequer e como se já não bastasse todo a loucura da situação, outro fator a torna ainda mais esquisita para todos aqueles que presenciam o momento: Eric sai voando pelo céu noturno. A partir daí, a vida desses quatro amigos não será mais a mesma.

Em um mundo bem parecido com o que vivemos, um homem que desenvolve poderes após uma explosão faz com que o autor, com maestria, consiga abordar temas no mínimo interessantes na HQ. Por vezes ela consegue até transbordar em discussões filosóficas sobre alguns temas (continuo logo mais abaixo). Dentre alguns aspectos acertados por John Acurdi está em mostrar o papel insensível da mídia televisiva, que vê tudo apenas como mais um história para contar e consequentemente irá trazer lucros para a esse tipo de empreendimento. O autor  ainda desenvolve rapidamente uma representação do pior que existe no meio político, onde o "vilão" da história faz algo que todo cidadão revoltado com o mundo político em que ele está inserido tem a vontade de fazer: jogar na cara dos políticos a sua indignação, através de algumas verdades. 

Segue apenas um pedaço da cena para dar um gostinho: 


Outro ponto muito presente na obra é o contexto religioso, levando o leitor a refletir sobre o papel de líderes religiosos e até questionamentos sobre Deus (Um detalhe que está presente desde a capa do quadrinho). O caráter das "escolhas" de um ser divino é posto aqui em questionamento, seria Deus injusto ao ajudar uns e esquecer de outros? Aliás, ele esquece ou seria algo mais profundo? Se você fosse alguém poderoso, quem ajudaria? Você pelo menos ajudaria? Questões como essas são postas nas entrelinhas da obra, é um ponto certeiro do autor a propor reflexões tão sensíveis como essa.




De muitos acertos aquele que mais me chamou atenção é o trabalho primoroso feito em cima dos personagens principais. Acurdi inseriu camadas em seu roteiro e cabe a nós leitores entender o que se passa na mente daqueles personagens, nos levando assim a uma viagem sem volta. Algo impossível para mim, é deixar isso de lado.


O nosso protagonista Sam é um rapaz que se sente um tanto magoado por não conseguir o amor da sua vida e tem que conviver com o fato. Sam consegue ser um cara extremamente companheiro e amável com seus amigos, aquele tipo de cara que não os abandona e tenta os ajudar ao máximo, porém, não consegue deixar de sentir um tanto de inveja deles, populares na época da faculdade e agora bem-sucedidos financeiramente. O mesmo após a grande reviravolta na vida dos quatro, não consegue deixar de aproveitar-se das situações que o cercam e parece ser um cara orgulhoso. 
Hugh é o boa pinta do quarteto, um rapaz bonito, sempre bem-intencionado, é um cara que se preocupa muito com o irmão e quando a explosão do prédio acontece, não para quieto enquanto não sabe do estado de Eric. Hugh, entrentanto, sente ciúmes da relação Sam com seu irmão, um sentimento que passa dos limites.
Almah, esposa de Hugh, tem pouco espaço no quadrinho, mas exibe uma personalidade engraçada em meio ao bando de marmanjos, não sabe da paixão que Sam nutre por ela e muda totalmente após um grande acontecimento na sua vida e de seu esposo.

Note que nestes personagens há uma interessante característica da obra, que inclusive a difere das outras, eles são pessoas extremamente boas, mas carregam consigo um detalhe, aquela característica que o faz parar um instante a leitura e pensar “isso tá no mínimo estranho, não tá certo”. Provavelmente esse seja o principal acerto de John Acurdi ao construir o roteiro, os personagens tem um detalhe que o torna humanos. É dos seres humanos buscar a perfeição, ou simplesmente exibirem-se com mascarás de criaturas perfeitas perante os outros, obviamente não é regra para todos, mas as vezes parece até natural não querermos mostrar para os outros aquilo que nos envergonha, até não tomarmos conhecimento dos nossos próprios defeitos (algo comum em pessoas com ego inflado), e nesta hq Acurdi nos refletir sobre nós e apresenta aqueles desavisados que a tal perfeição é apenas mais algo que não faz parte do contexto humano.


Chegamos então a Eric, aquele que é mais afetado pela explosão em seu prédio, ele dividia traços de personalidade com seu irmão, exatamente isso que leu, dividia. Antes era um homem de bom coração e sendo muito próximo de Sam, sabia sobre seu sentimento por Almah mas talvez para não complicar a situação, guardou para si a informação. Neste personagem fica nítido as opiniões do autor a respeito de temas de cunho social, religioso, político e humano. Eric após a explosão, à principio é um cara que busca fazer o bem e ajudar as pessoas, ou pelo menos tenta, mas se torna aos poucos um cara arrogante, e ao mesmo tempo um salvador, o redentor, um Deus. O trabalho por trás de seu personagem foi para mim o ponto auto da obra, ele demonstra através de suas ações, o pior do ser humano, crê que os fins justificam os meios e ainda se julga como quem está correto das suas ações. Age como um ditador, que aproveita dos poderes que detém, para extinguir aqueles que o ameaçam, gerando rios de sangue por onde passa, sem exibir o mínimo arrependimento por suas ações desvairadas. Devo admitir, algumas vezes concordei com suas opiniões ( mas não se preocupem, neste ponto da leitura questionei minha sanidade xD).

O personagem vilanesco de Eric e as ações em que é envolvido me trouxe lapsos da realidade em que vivemos, onde as pessoas defendem opiniões extremistas e não observam a situação como um todo, buscam ajudar o próximo mas se tornam um tanto hipócritas quando tomam outras atitudes. Não procuram ver as entrelinhas dos acontecimentos que a cercam e buscam cegamente por um salvador, que talvez não seja aquilo que elas esperam. (A Revolução dos bichos feels).

Deus em Algum Lugar é uma ótima leitura para aqueles que buscam algo diferente no meio dos quadrinhos, trará para você ótimos questionamentos sobre a humanidade e Deus, e se você ainda achar esses questões chatas ou não aprofundadas, a diversão ainda fica por conta da destruição que rola solta no quadrinho, com uma arte que segura te faz admirar alguns enquadramentos. É por esse tipo de quadrinho que eu continuo os lendo.

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